AMENAZA ROBOTO
Inteligência Artificial no Estado
O Estado incorpora IA sem informar o suficiente para controlar seu uso
Vigiar, fiscalizar e classificar processos são algumas das tarefas para as quais os órgãos públicos usam ou planejam incorporar inteligência artificial. A Amenaza Roboto pediu a 24 instituições que identificassem seus projetos: nove apresentaram inventários ou remeteram a eles. Houve respostas sem dados de alcance ou risco, reservas de informação e quatro negativas de acesso.

Por: Miguel Ángel Dobrich e Gabriel Farías.
Assesoria jurídica: Matías Jackson. Tradução: Diogo Rodriguez

14 de setembro, 2026

Esta investigação foi produzida no âmbito da AI Accountability Network do Pulitzer Center.
OBPS usa modelos preditivos para selecionar contribuintes a fiscalizar. A ANCAP recorre à inteligência artificial para antecipar a demanda de combustíveis e preparar decisões de compra. O Ministério do Interior anunciou um projeto para analisar movimentos e padrões de conduta associados a delitos por meio de câmeras de videovigilância, mas deixou vencer o prazo legal sem responder ao pedido de informação da Amenaza Roboto.

A inteligência artificial auxilia os servidores públicos em suas tarefas diárias e pode influenciar suas decisões. Para examinar essa influência, a cidadania precisa saber que informação o sistema recebeu, o que recomendou e como o servidor utilizou essa recomendação. No entanto, a informação disponível em fontes públicas sobre os desenvolvimentos de inteligência artificial dos órgãos públicos nem sempre permite reconstituir esse processo.

A Amenaza Roboto apresentou pedidos de acesso à informação pública a 24 órgãos. Solicitou um inventário de seus projetos de IA em funcionamento, em fase piloto ou em avaliação. Para cada um, pediu nome, finalidade, tipo de desenvolvimento, datas de início e término, se fosse o caso, unidade responsável, quantidade estimada de pessoas afetadas e nível de risco. Nove órgãos entregaram listas ou remeteram a elas.

Os órgãos que apresentaram listas foram ANCAP, ANDE, ANII, BPS, Banco Central, UTEC e os ministérios da Economia e Finanças, do Desenvolvimento Social e do Ambiente. Suas respostas permitem identificar em quais tarefas do Estado a inteligência artificial intervém e quais áreas estão encarregadas dela.

O Banco Central informou 17 projetos e aplicações; a ANCAP detalhou nove projetos e aplicações e reservou outras soluções; a UTEC identificou cinco projetos e qualificou dois como de risco alto. Os inventários permitem situar quais tarefas se busca automatizar, quais áreas estão encarregadas e que alcance cada instituição declara. Também registram o que os órgãos não informaram.

A AGESIC e a Unidade de Acesso à Informação Pública (UAIP) recomendaram em 2024 que os órgãos explicassem para que usam esses sistemas, como funcionam e com quais dados trabalham. Seu guia de transparência algorítmica adverte que essa informação permite examinar possíveis vieses ou injustiças nas decisões.
Antecipar a demanda e planejar
A ANCAP projeta a demanda de diesel, gasolinas e gás liquefeito de petróleo (GLP) com um modelo de redes neurais. Segundo sua resposta à Amenaza Roboto, utiliza a demanda anterior, políticas públicas e previsões de mercado para apoiar decisões comerciais e de planejamento. A iniciativa começou em 2021, está a cargo da Gerência de Transformação Digital e da Chefia de Planejamento Comercial, e foi classificada pelo órgão como de risco alto.

Ao ser solicitada a estimar a quantidade de pessoas afetadas, respondeu "o negócio em geral". A ANCAP opera a única refinaria do país e tem, com exceções legais, o monopólio de importação de petróleo e combustíveis derivados.

O uso de inteligência artificial para prever a demanda pode ter consequências tanto para as contas da ANCAP quanto para o setor produtivo, o transporte e os domicílios que dependem desse abastecimento.

O modelo de demanda de combustíveis que a ANCAP incluiu em seu inventário também está publicado no Observatório de IA da AGESIC. Sua ficha detalha alguns fatores utilizados na projeção: a atividade arrozeira para o diesel, o turismo para as gasolinas e a previsão meteorológica para o gás liquefeito de petróleo.

A ficha indica que o sistema já está em uso e explica que uma equipe toma a decisão de compra tendo o relatório do modelo como insumo. O peso da ferramenta nessas decisões fica sem definição tanto na resposta à Amenaza Roboto quanto na ficha do Observatório de IA da AGESIC.

Mais iniciativas do Estado:

Instituição Aplicação Responsável Alcance estimado Risco Estado
Avaliar apoios e investimentos
ANDE Assistência de IA ao comitê que avalia candidaturas ao programa Semilla Não informado Não informado Não informado Em definição1
MEF Chatbot para controle de elegibilidade de investimentos e consultas normativas internas COMAP Não informado Não informado Não informado2
Revisar documentos e processos
UTEC Revisão de notas fiscais de diárias e carga de dados no sistema de gestão Não informado 500 pessoas Não informado Não informado
ANII Revisão de notas fiscais de prestações de contas (produto mínimo viável) Executivo responsável decide aprovação/rejeição Não informado Baixo Produto mínimo viável3
ANII Validador de documentos anexados às candidaturas (nova versão) Não informado Não informado Não informado Em desenvolvimento4
MEF Controle Documental do Balcão Único com IA COMAP Não informado Não informado Não informado
ANCAP Assistente de classificação de informação (pública/reservada/confidencial) e minutas de resoluções da Diretoria Secretaria-Geral e Transformação Digital 1.500 pessoas Mínimo Projeto de implementação5
BSE Reconhecimento de imagens de documentos (sistema baseado em WATSON) Não informado6 Não informado Não informado Finalizado e em produção6

1 Para o piloto, a ANDE prevê validação humana de todas as respostas e uso de dados anonimizados ou simulados. É um dos quatro projetos informados pela agência.

2 O MEF informou as datas do projeto e a unidade responsável, mas não especificou alcance nem risco.

3 Faz parte do inventário de nove aplicações entregue pela ANII, que também inclui ferramentas em uso, em desenvolvimento e descontinuadas.

4 Substitui um validador anterior que a ANII declarou descontinuado; esse validador podia bloquear uma solicitação até que um erro fosse corrigido.

5 Houve um piloto prévio que alcançou duas pessoas da Secretaria-Geral e terminou em outubro de 2025.

6 Segundo sua ficha no Observatório de IA da AGESIC (e não de uma resposta direta ao pedido de acesso, que o BSE negou); funciona com processo automático e sem intervenção humana na decisão final dessa tarefa documental.

Fiscalizar e supervisionar
O BPS utiliza modelos preditivos para orientar a seleção de contribuintes a fiscalizar. Seu Plano de Fiscalização 2025, publicado no site do órgão, descreve a seleção de casos com indícios de evasão e prevê controles de contribuições rurais apoiados em estimativas baseadas em imagens de satélite, além da seleção de obras para avaliação.

O BPS informou à Amenaza Roboto que utiliza modelos preditivos em "diversos processos de negócio" e os declarou em produção. Isso quer dizer, em uso. Mas não identificou quais são nem explicou suas funções. Reservou os dados adicionais solicitados, como datas de início, alcance e risco, por motivos de cibersegurança.

A resposta contrasta também com a política de segurança para IA que o próprio BPS anexou, a qual exige transparência perante a cidadania sobre as decisões automatizadas e atribui a um grupo interno a avaliação de riscos. Embora publique usos concretos em seu plano de fiscalização, diante do pedido de acesso o órgão ofereceu uma descrição genérica e alegou cibersegurança para reservar os dados adicionais, sem explicar que risco implicaria divulgar cada um deles.

Outras instituições que fiscalizam usando IA:

Instituição Aplicação Responsável Alcance estimado Risco Estado
BCU Consulta e resumo de atas de entidades supervisionadas Superintendência de Serviços Financeiros 100 pessoas Médio Não informado1
BCU Assistência ao processo de autorizações Superintendência de Serviços Financeiros 50 pessoas Médio Não informado1
BCU Relatórios que comparam contratos com a normativa (terceirizações) Superintendência de Serviços Financeiros 50 pessoas Médio Não informado1
BCU Aranda Virtual Agent GG-TI, conforme identificação do BCU 600 pessoas Médio Não iniciado
Ministério do Meio Ambiente Fortalecimento das capacidades de fiscalização DINACEA/ACDA2 20 pessoas2 Baixo2 Projeto com Superset; incorporação de um assistente prevista, a avaliar2

1 O BCU informou datas de início, mas não um estado individual para estes três projetos. Essas datas não permitem comprovar que estejam em produção.

2 No Meio Ambiente, o responsável, o alcance e o risco correspondem ao projeto completo, e não a uma avaliação independente do futuro assistente. O estado reflete a resposta de maio de 2026.

As quantidades são as declaradas pelos órgãos; não devem ser somadas como pessoas únicas.

Esses usos podem implicar o tratamento de dados pessoais das pessoas fiscalizadas ou supervisionadas. Matías Jackson, advogado especializado em sistemas de informação e assessor jurídico desta investigação, advertiu que, nesses casos, os órgãos devem aplicar as garantias previstas na Lei de Dados Pessoais, a nº 18.331.

A lei reconhece o direito das pessoas a "não ficar submetidas a decisões com efeitos jurídicos que as afetem significativamente quando se baseiem no tratamento automatizado de dados para avaliar aspectos pessoais", assinalou Jackson. Quando esse tratamento é o único fundamento de um ato administrativo, acrescentou, a pessoa afetada pode "impugná-lo e acessar informação sobre os critérios e o programa utilizados para decidir".
Vigiar e identificar
O Ministério de Transporte e Obras Públicas (MTOP) respondeu parcialmente ao pedido da Amenaza Roboto e não compartilhou o inventário com os campos solicitados. Segundo o Observatório de IA da AGESIC, o MTOP reconhece rostos para controlar o acesso à sua sede central e habilitar veículos oficiais a seus motoristas. Também reconhece placas. O sistema reporta eventos e uma pessoa determina o procedimento a seguir. Abrange as equipes de trabalho e quem entra nos edifícios do ministério.

Já o Ministério do Interior deixou vencer o prazo previsto pela Lei de Acesso à Informação Pública e não respondeu ao pedido da Amenaza Roboto. Conforme explicou o advogado Matías Jackson, nesses casos opera o chamado "silêncio positivo": vencido o prazo, o órgão deve entregar a informação.

Na prática, porém, essa consequência raramente se concretiza sem intervenção judicial. "Esse instituto raramente se materializa em uma entrega", assinalou Jackson. Os solicitantes costumam recorrer à Justiça, onde, acrescentou, os juízes têm entendido que a entrega não é automática e que cabe analisar cada caso.

O Ministério do Interior tampouco tem desenvolvimentos publicados no Observatório de IA da AGESIC, segundo a consulta realizada em 8 de setembro de 2026. No entanto, em publicações em seu site oficial, o Ministério descreve ferramentas capazes de identificar pessoas, seguir veículos, analisar condutas e orientar intervenções policiais. São usos especialmente sensíveis por seus possíveis efeitos sobre a privacidade, a liberdade de circulação e o tratamento que uma pessoa recebe da Polícia.

A Amenaza Roboto reconstituiu esses usos e projetos de IA e reconhecimento automatizado a partir de comunicados, relatórios de gestão e uma compra estatal. As fontes permitem conhecer parte da atividade do ministério, mas não o conjunto nem aspectos que o pedido buscava esclarecer, como os responsáveis, as datas, a quantidade de pessoas alcançadas e o risco atribuído a cada aplicação. O estado registrado para cada caso corresponde ao informado pelas fontes citadas.
Instituição Aplicação Responsável Alcance estimado Risco Estado
BCU Consulta e resumo de atas de entidades supervisionadas Superintendência de Serviços Financeiros 100 pessoas Médio Não informado1
BCU Assistência ao processo de autorizações Superintendência de Serviços Financeiros 50 pessoas Médio Não informado1
BCU Relatórios que comparam contratos com a normativa (terceirizações) Superintendência de Serviços Financeiros 50 pessoas Médio Não informado1
BCU Aranda Virtual Agent GG-TI, conforme identificação do BCU 600 pessoas Médio Não iniciado
Ministério do Meio Ambiente Fortalecimento das capacidades de fiscalização DINACEA/ACDA2 20 pessoas2 Baixo2 Projeto com Superset; incorporação de um assistente prevista, a avaliar2

1 O BCU informou datas de início, mas não um estado individual para estes três projetos. Essas datas não permitem comprovar que estejam em produção.

2 No Meio Ambiente, o responsável, o alcance e o risco correspondem ao projeto completo, e não a uma avaliação independente do futuro assistente. O estado reflete a resposta de maio de 2026.

As quantidades são as declaradas pelos órgãos; não devem ser somadas como pessoas únicas.

A falta de transparência não se limita a uma questão de forma. Carolina Aguerre, especialista em governança de tecnologias, professora associada da Universidade Católica e pesquisadora afiliada ao CETYS da Universidade de San Andrés, adverte que o uso de IA sem informação acessível sobre como é implementada "pode corroer a confiança cidadã nas instituições públicas".
Ensinar e avaliar
A UTEC testa o TutorIA para acompanhar estudantes de Física I e desenvolve um assistente para recomendar tecnologias de ensino, ainda em avaliação. Classificou ambos os projetos como de risco alto no inventário de cinco iniciativas que entregou à Amenaza Roboto.

Para o TutorIA, a UTEC estimou um alcance de cerca de 100 pessoas e identificou a Licenciatura em Análise Alimentar e o Centro de Transformação Digital como responsáveis. Para o assistente de tecnologias educacionais informou também cerca de 100 pessoas e indicou o Centro de Transformação Digital.

O Ceibal respondeu ao pedido de inventário com links para sua página de projetos e para o levantamento da AGESIC. Essas publicações permitem conhecer aplicações que intervêm em diversas tarefas educacionais.

O Ceibal gera sugestões de devolutiva sobre trabalhos por meio de um serviço de tutorias virtuais no CREA, voltado a docentes, estudantes de magistério e equipes de direção. Quem está a cargo do curso deve aprová-las ou modificá-las. O serviço inclui também um chatbot com o qual quem cursa interage diretamente, segundo a publicação do Observatório de IA da AGESIC.

Outra aplicação é o PowerBuddy, incorporado ao CREA para apoiar o preparo de aulas. A ANEP anunciou sua disponibilidade em junho de 2025. A partir das instruções do docente, o aplicativo propõe atividades e conteúdos que este deve revisar, adaptar e validar.

O Ceibal busca ainda automatizar parte da avaliação oral de seu programa de inglês. A ficha publicada no Observatório, com informação reportada em março de 2024, descreve um projeto em andamento, desenvolvido com a Faculdade de Engenharia da Universidade da República, que utiliza áudios e mantém intervenção humana na decisão final.

Risco alto, médio ou mínimo, conforme quem responde

Saber que ferramenta um órgão usa é apenas o começo do controle cidadão. Carolina Aguerre adverte que também devem ser examinadas "as condições de uso e implementação desse sistema" e os riscos que ele pode representar para as obrigações do Estado e para a cidadania.

Os órgãos não comprovaram uma metodologia comum de avaliação. Os rótulos expressam a qualificação que cada um atribuiu a seus projetos e não permitem ordenar o conjunto segundo seu risco.

O guia da AGESIC e da UAIP recomenda documentar de onde saem os dados, quem participa do desenvolvimento e que público o sistema afeta. Pede que se precise quanto se automatiza e que intervenção uma pessoa conserva. Também propõe guardar registros das decisões e detalhar as auditorias, os impactos e a gestão de riscos, com especial atenção aos direitos humanos.

Há respostas que nem sequer permitem estabelecer quantas pessoas são alcançadas. Algumas contam usuários internos; outras, pessoas ou unidades organizacionais. Tampouco essas cifras podem ser somadas para obter um total de cidadãos afetados.
A informação obtida pela Amenaza Roboto mediante pedidos de acesso não coincide com a que os órgãos publicam no Observatório de Inteligência Artificial no Estado. A última atualização publicada do Observatório corresponde a abril de 2025.

Para saber que sistemas o Estado usa, onde são aplicados e com que alcance, ainda é preciso reconstituir o panorama peça por peça. Não existe hoje uma fonte pública que permita conhecer, de forma completa e atualizada, como o Estado uruguaio está incorporando inteligência artificial.
Para mais detalhes sobre esta investigação, consulte o repositório da Amenaza Roboto no GitHub. Lá estão os documentos de respaldo da matéria.
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