AMENAZA ROBOTO | DATA CENTERs
O calor por trás da nuvem
Vinte e cinco anos de imagens de satélite revelam que o data center da Antel, em Pando, gera uma ilha de calor visível do espaço. A 11 quilômetros dali, o Google constrói outro, muito maior.

Por: Gabriel Farías y Miguel Ángel Dobrich.
Assessoria científica: Luis Orlando, doutor em biologia.
Fotos: Matilde Campodónico. Design: Antar Kuri.
Tradução: Diogo Rodriguez.

22 de abril, 2026

Esta investigação foi produzida no âmbito da AI Accountability Network do Pulitzer Center.
Quando alguém faz o backup do celular, envia um e-mail ou assiste a um vídeo no YouTube, raramente pensa no que acontece do outro lado. Essa informação viaja até um edifício concreto, repleto de computadores que funcionam sem parar, 365 dias por ano. Essas construções são chamadas de data centers. São a infraestrutura física daquilo que, com certa poesia publicitária, a indústria batizou de "nuvem". Mas as nuvens de verdade fazem sombra. Esses edifícios criam calor.
Vista aérea do data center da Antel.
Em Pando, cidade de cerca de 30 mil habitantes situada a 30 quilômetros de Montevidéu, capital uruguaia, funciona desde maio de 2016 um data center da Antel, a empresa estatal uruguaia de telecomunicações. A Amenaza Roboto analisou 25 anos de imagens de satélite do local e encontrou algo que, até agora, ninguém havia medido no Uruguai. A instalação gera sua própria ilha de calor: uma zona que permanece mais quente do que tudo o que a cerca.

Diferentemente de um edifício comum, dentro do data center milhares de servidores convertem eletricidade em calor, que um sistema de refrigeração expele para o ambiente, e essa assinatura térmica é detectável por um satélite que orbita a mais de 700 quilômetros da Terra.

Esse data center tem capacidade máxima de 12 megawatts, um quinto do que o Google está construindo a 11 quilômetros dali.
25 anos de registros térmicos
A Amenaza Roboto utilizou imagens do satélite Landsat, operado pela NASA e pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), que desde o ano 2000 registra a temperatura da superfície terrestre. O sensor térmico do satélite tem resolução de 100 metros, que um processamento padrão permite refinar a 30 metros: o suficiente para distinguir um edifício da rua que o cerca.

O satélite mede a temperatura das superfícies: o solo, os telhados, o pavimento. Permite saber o quanto uma superfície está mais quente do que outra. A temperatura registrada não é a que uma pessoa sentiria, mas serve para localizar quais zonas estão esquentando.

A temperatura de um terreno vista do espaço depende de múltiplos fatores, como a vegetação, o tipo de solo, a pavimentação ou a época do ano. Se o terreno em que o data center foi construído perdeu vegetação e ganhou asfalto, sua temperatura subirá pela urbanização, mas não pela atividade. Para separar um efeito do outro, a Amenaza Roboto construiu um modelo estatístico que considera todas essas variáveis e compara o mesmo terreno em dois períodos: antes de o data center existir (2000 a 2013) e depois do início da operação (2017 a 2025). Os anos de construção foram excluídos para não distorcer os resultados.

Para descartar, além disso, que qualquer aumento se devesse a fatores gerais, como a mudança climática, o crescimento urbano de Pando ou variações naturais, o modelo desconta qualquer variação experimentada também por dois edifícios industriais de referência: um galpão do Correo uruguaio (o correio estatal) e um depósito têxtil próximo, sem maquinário de processamento nem refrigeração industrial.

No total, a análise se baseia em mais de 32 mil medições de temperatura feitas pelo satélite ao longo de 25 anos.

O calor que só os servidores explicam

A análise mostra que, depois que o data center começou a operar, a temperatura do local subiu 2,1°C em relação ao seu entorno. Cerca de 0,2°C correspondem a uma tendência de fundo do ambiente, não atribuíveis ao data center. Os 1,9°C restantes são, sim, atribuíveis a ele, e têm duas origens: a transformação do terreno responde por 83% — a vegetação que cobria a gleba foi substituída por edifício, estacionamento e pavimento — e os 17% restantes, ou 0,32°C, correspondem à operação ativa dos servidores e à sua refrigeração. É a pegada térmica do data center, isolada da mudança de cobertura do solo e do aquecimento do entorno.

O doutor em biologia e especialista em ilhas de calor Luis Orlando, assessor científico desta investigação, explicou que "para além dos números, que são conservadores, o interessante e transcendente é o sinal que se detecta: um aumento de calor nas imediações do data center. Conseguimos confirmar que uma parte está associada às mudanças na paisagem. Mas há outra parte que só se explica pela operação. Essa medida captura isso: o sinal inequívoco de um emissor de calor".

Um terço de grau pode soar pouco. Mas é a contribuição de um único edifício, medida por um satélite que passa às 10h30 da manhã, antes do pico diário de calor, e calculada como média ao longo de 25 anos de observações. O satélite está capturando o piso do sinal térmico, não o teto. A probabilidade de esse resultado ser produto do acaso é praticamente nula. O efeito aparece quando os servidores são ligados.
Nenhum sistema de refrigeração elimina o calor: apenas o transfere de dentro para fora.
Como um data center esfria (e por que ainda assim aquece)
Dentro do data center da Antel há fileiras de servidores funcionando sem interrupção. Cada servidor usa eletricidade para processar informação, e esse processo gera calor como subproduto inevitável. Não é uma ineficiência de projeto, é uma consequência da termodinâmica.

Para retirar esse calor do prédio, água fria percorre as salas em um circuito fechado, absorve o calor liberado pelos servidores e retorna morna aos chillers: máquinas industriais que a resfriam e a devolvem ao percurso. O calor retido deixa o edifício pelos condensadores — fileiras de ventiladores que o expulsam ao ar livre. É o sistema principal de refrigeração e opera nas três salas hoje em funcionamento.

Em uma das salas, além disso, giram quatro grandes rodas de Kyoto: trocadores de calor que aproveitam o ar frio do exterior para resfriar o do interior sem que os dois fluxos se misturem. Quando a temperatura externa permite, o sistema é acionado: até três operam ao mesmo tempo, uma quarta fica sempre de reserva. Se o resfriamento não for suficiente, os chillers terminam o serviço. A indústria chama isso de free cooling, ou resfriamento natural: não substitui o sistema principal, complementa-o, e economiza energia — o maior gasto de um data center. A Amenaza Roboto verificou esses equipamentos durante uma visita à instalação.

O calor gerado pelos servidores precisa sair do edifício. Sai pelos equipamentos de refrigeração instalados no exterior: os condensadores dos chillers, as rodas de Kyoto e cada ponto em que o sistema descarrega no ambiente o calor retirado de dentro. Nenhum sistema de refrigeração elimina o calor: apenas o transfere de dentro para fora.

Os condensadores dos chillers, sobre o telhado do data center. Por esses ventiladores sai ao ar livre, 24 horas por dia, o calor gerado pelos servidores no interior. Nenhum sistema de refrigeração elimina o calor: apenas o transfere de dentro para fora.

O calor não está no telhado: está no entorno
O modelo isolou uma parte do calor que só aparece quando os servidores estão ligados. Essa emissão deveria deixar uma marca física no espaço. Para encontrá-la, comparou-se o padrão do data center com o dos galpões de referência. Qualquer diferença seria a assinatura dos condensadores e das rodas de Kyoto.

O calor de um telhado convencional vem do sol e fica onde cai. A temperatura é máxima sobre o próprio edifício e diminui com a distância. É o que se observa nos galpões de referência: uma queda gradual e uniforme, um degrau do edifício aos primeiros 150 metros e outro parecido até os 300.
Dentro dos 300 m ao redor do data center concentra-se a anomalia térmica detectada: a mesma faixa em que, segundo especialistas, uma onda de calor teria seus efeitos sobre a saúde amplificados.
No data center, o padrão é diferente. A temperatura se mantém praticamente igual entre o edifício e os primeiros 150 metros — um platô térmico que não aparece em nenhum outro sítio analisado. Esse platô só se explica pelo calor do sistema de refrigeração: ele não permanece onde é gerado, e sim se dispersa pelas imediações. Esses equipamentos externos expelem jatos de ar quente que não ficam junto ao edifício: deslocam-se com o vento e se acumulam na periferia.

Por isso, a diferença em relação aos controles aparece na zona que rodeia o data center, não no próprio edifício. Isso foi verificado com duas referências geográficas independentes e confirmado por um teste estatístico formal: nos galpões de referência, a temperatura decresce com a distância; no data center, não.
A onze quilômetros: o Projeto Teros
Tudo o que foi descrito até aqui corresponde a um data center com capacidade máxima de 12 megawatts que, durante o período analisado, não operou a plena carga: na visita ao local, a Amenaza Roboto pôde confirmar que uma das quatro salas de servidores estava vazia.

A 11 quilômetros de distância, em Ciudad de la Costa — área residencial da região metropolitana de Montevidéu —, o Google está terminando de construir o Projeto Teros, seu data center de hiperescala, a maior categoria existente no setor. A plena capacidade, consumirá 560 gigawatts-hora por ano, conforme a descrição do projeto no Estudo de Impacto Ambiental (EIA) avaliado pelo Ministério do Ambiente do Uruguai. É o equivalente ao consumo elétrico de cerca de 200 mil domicílios — mais do que qualquer localidade do país, salvo Montevidéu. Seu consumo energético máximo implica uma potência média de aproximadamente 64 MW, cinco vezes a capacidade máxima do data center da Antel.
Fotos do perímetro do Projeto Teros.
O Google já opera um data center no Chile, o primeiro da empresa na América do Sul. O Projeto Teros será o segundo na região e o primeiro no Uruguai.

Segundo a revisão do processo ambiental, nenhum dos estudos apresentados pelo Google contempla o efeito de ilha de calor. A legislação uruguaia define impacto ambiental como qualquer alteração provocada por "matéria ou energia" — o que, em princípio, abrange o calor. Mas nenhuma norma o exige, e a autoridade ambiental tampouco o requereu. Quando analisou o processo, o efeito térmico de um data center sobre o seu entorno ainda não havia sido documentado. O calor de uma instalação que funcionará como um sistema de aquecimento ao ar livre, 24 horas por dia, não foi avaliado.
Macarena Sarroca, pesquisadora em clima e saúde da Pasteur Network, alertou à Amenaza Roboto que o efeito de uma ilha de calor potencializa os riscos à saúde durante ondas de calor.
Por que o calor importa
Também não existem estudos que meçam as consequências sanitárias do calor emitido pelos data centers sobre seu entorno. Sobre os efeitos do calor sobre a saúde, em geral, por outro lado, há décadas de evidência.

A literatura científica associa a exposição prolongada ao calor a aumentos na mortalidade cardiovascular e respiratória, insolações, doenças renais e deterioração da saúde mental. Os mais afetados são pessoas idosas, gestantes, crianças pequenas e quem trabalha ao ar livre.
Macarena Sarroca, pesquisadora em clima e saúde da Pasteur Network, alertou à Amenaza Roboto que o efeito de uma ilha de calor potencializa os riscos à saúde durante ondas de calor.

Um estudo da Universidade de Princeton, publicado no Journal of Applied Meteorology and Climatology em 2013, demonstrou que a mortalidade aumenta 0,38% a cada dia adicional de onda de calor, e que esse risco se agrava em zonas com ilhas de calor, onde o solo acumula calor durante o dia e o libera à noite, impedindo que o corpo se recupere.

É o que acontece em uma ilha de calor urbana convencional: asfalto e telhados que esquentam sob o sol e devolvem esse excedente depois do pôr do sol. Um data center acrescenta a isso uma fonte própria, ativa 24 horas por dia e independente do clima. Enquanto uma superfície convencional se resfria à noite, transferindo calor para o ambiente, um data center continua emitindo e aquecendo as superfícies.

Uma onda de calor em uma área em que opere um data center — cenário ainda não estudado — teria um efeito sanitário maior, e não de forma proporcional: em condições extremas, pequenos aumentos de temperatura podem multiplicar os riscos.

O data center da Antel em Pando, considerado de porte médio, fica em uma zona de baixa densidade urbana. O do Google, a 11 quilômetros, e de hiperescala, faz divisa com campos esportivos de instituições de ensino, como o do Lycée Français (colégio francês), e com as sedes dos clubes esportivos Lawn Tennis e Old Christians, além de moradias e outras indústrias. O governo uruguaio projeta mais instalações do tipo.
À esquerda, uma cooperativa habitacional. À direita, o data center da Antel, separado pela rodovia 101.

O que vem a seguir
Esta investigação não é apenas uma descoberta a respeito um edifício em Pando. Com 25 anos de registros de satélite, comprovou-se quanto calor um data center gera sem usar toda a sua capacidade instalada e com refrigeração eficiente. O do Google empregará a mesma tecnologia de resfriamento, mas com cinco vezes mais capacidade, em um terreno de características distintas e em uma zona mais povoada. Se um data center de porte médio que não funciona a plena carga produz uma ilha de calor detectável do espaço, um com cinco vezes mais potência produzirá um sinal maior. O que resta medir é a magnitude — e agora há um antecedente para fazê-lo.

A contribuição central é ter demonstrado que é possível distinguir, com dados públicos e gratuitos, qual parte do calor vem da construção e qual parte vem dos servidores. O método é replicável.

emperatura da superfície do entorno do data center da Antel em Pando. Cada pixel mostra o desvio em relação à vegetação circundante; o polígono vermelho delimita o terreno. Antes (2000–2013): o local não se distingue termicamente do seu entorno. Depois (2017–2025): sobre o data center aparece uma anomalia de calor que não existia, produzida pela refrigeração dos servidores. Fonte: Amenaza Roboto com base em Landsat (NASA / USGS).

Enquanto este trabalho estava em andamento, em março de 2026 foi publicado o primeiro estudo que relaciona data centers a ilhas de calor (Marinoni et al., “The data heat island effect”, arXiv). Trata-se de um preprint (versão preliminar divulgada antes de passar pela revisão por pares) que reportou um aumento médio de 2°C ao redor dos data centers analisados.

O estudo recebeu críticas metodológicas do divulgador independente Andy Masley, do analista da consultoria Omdia Vlad Galabov e do pesquisador da Universidade de Bristol Chris Preist, que convergiram em um mesmo ponto: o trabalho não separa o calor produzido pelos servidores em funcionamento daquele que simplesmente se acumula pela substituição de vegetação por telhados e pavimento. Masley apontou que o paper tampouco compara com outros tipos de construção comercial e que a resolução do sensor MODIS utilizado (1 km por pixel) impede distinguir o data center do seu entorno.

A análise da Amenaza Roboto usou Landsat, com resolução 33 vezes maior, controlou todos esses fatores e é, segundo a revisão de literatura realizada, a primeira a isolar os dois componentes.

A indústria global de data centers consome mais eletricidade do que vários países inteiros. Diferentemente de outras instalações industriais, um data center converte praticamente toda a eletricidade que consome em calor e o dissipa a partir de um único terreno, de forma contínua, 24 horas por dia, 365 dias por ano.

O Uruguai se posiciona como polo regional para esse tipo de infraestrutura. A Antel opera três data centers — Pando, Pocitos e Lezama —, equipará uma quarta sala no de Pando e construirá dois novos, um em Aguada e outro em local a definir. O Google constrói o seu. Segundo fontes do setor, outras três instalações privadas estão projetadas. Seus proponentes afirmam que esses projetos trazem investimento econômico, empregos e desenvolvimento de infraestrutura digital.

Quando se discute o impacto dos data centers sobre o meio ambiente, o debate público costuma se concentrar no consumo de água e de energia. O efeito térmico sobre o entorno — o calor que essas instalações depositam sobre as comunidades que as cercam — não aparece na conversa. Os dados demonstram que esse impacto existe, é mensurável e não estava sendo monitorado.

Agora há uma medição e uma linha de base para o que vem pela frente. O calor por trás da nuvem já não é invisível — e se detecta a 700 quilômetros de altitude.
A solidez dos dados
O efeito líquido do data center (0,32°C) resulta de um modelo estatístico que analisou 32.861 medições de temperatura feitas por satélite ao longo de 25 anos. O modelo controla simultaneamente quatro variáveis que também afetam a temperatura de um terreno: a quantidade de vegetação, o grau de construção do solo, a distância em relação ao edifício e o momento da análise. Depois de descontar todas essas influências, o que resta é a pegada térmica da operação. A probabilidade de esse resultado ser produto do acaso é de menos de uma em um bilhão.
O modelo também verifica que, antes da existência do data center, os três terrenos analisados — a gleba do data center, o galpão do Correo e o depósito têxtil próximo — não se diferenciavam entre si. É uma condição necessária para atribuir a mudança aos servidores, e não a algo que já estivesse ocorrendo: se os locais fossem distintos desde o início, a divergência posterior poderia ser explicada por essa diferença de origem. Mas os três se comportavam igual. A divergência surge exclusivamente quando os servidores são ligados.
O mesmo modelo confirma estatisticamente o platô térmico descrito acima: o anel dos primeiros 150 metros ao redor do data center é mais quente do que o dos edifícios de controle, onde a temperatura decai com a distância. É um padrão espacial que não aparece em nenhum outro dos locais analisados.

Para mais detalhes técnicos sobre esta investigação, consulte o repositório da Amenaza Roboto no GitHub.
Mapa de anomalia térmica ao redor do data center da Antel: em vermelho, as zonas mais quentes do que os controles; em azul, as mais frias (a leste, a área úmida do arroio Pando). O polígono vermelho marca o edifício. Fonte: Amenaza Roboto sobre Landsat (NASA/USGS).
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